quarta-feira, 12 de outubro de 2011

O EURO, A AJUDA À GRÉCIA E O PROJETO ALEMÃO



Mais que um símbolo nacional, a moeda e seu controle pelos homens de Estado definem a remuneração do capital financeiro, viabilizam a gestão de projetos estratégicos pelo Estado, a administração e o custeio do dia-a-dia do País, determinam o perfil da distribuição de renda entre segmentos sociais e também dos ganhos de comércio entre países.

Tal como o pênalti – que teria que ser batido pelo presidente do clube, como alguém já afirmou  –  a gestão da política monetária deve permanecer sob a guarda da mais alta administração do País. Sua submissão à irracionalidade do mercado não teria cabimento, pois não se aplica à moeda o ideário e a política ingênua do ganha-ganha, discurso fácil de marqueteiros, como bem o prova essa crise econômica que já completa quatro anos.


             O Euro e a delimitação de espaço econômico vital europeu

Nesse sentido, a União Européia somente viabilizou-se, não pela ameaça do "comunismo ateu do estado totalitário soviético". O motivo da criação da CEE não foi a ameaça e o poder da URSS contra o qual foi constituída a OTAN.

Caso assim tivesse sido, ao ter a Rússia perdido um terço de sua população e de seu território no desmoronamento da URSS, a Comunidade Econômica Européia (CEE) também teria desmoronado, por conta de cessar aquilo que poderia ser o leitmotive da integração européia. Mas não, mesmo com o desmoronamento da URSS, a CEE aprofundou a integração e transformou-se em UE União Européia.

A razão da criação da CEE está em que o grande adversário dos países europeus eram e são os EUA, como já definira Charles De Gaulle, em 1966; como já bem esmiuçara Jean-Jacques Servan-Schreiber, em seu best-seller "Desafio Americano", de 1965. E como revela hoje, nos detalhes, o intelectual norteamericano, Chalmers Johnson (2007) (2002)


             Soberania européia e dominação militar americana

Com cerca de 400 mil soldados norteamericanos, em centenas bases militares instaladas na Alemanha, Espanha, França, Inglaterra, Itália, Portugal, barreiras de mísseis e poderio atômico, livrar-se do domínio dos EUA é a meta quase impossível de ser atingida pela Europa, hoje aglutinada na União Européia (UE).

Ainda hoje dominada política e militarmente, mesmo decorridos 65 anos do término da Segunda Grande Guerra, sabe a Alemanha que poderá recuperar a soberania sobre seu território, somente se unida aos demais países, em uma estratégia de 30 a 50 anos. As lideranças dos demais países europeus sabem disso.

Assim, o Euro representa menos a unificação das políticas monetárias dos países europeus, em si, custo doloroso a ser pago em termos de soberania nacional para qualquer dos países integrantes da UE.

A moeda única européia, o Euro, representa mais a busca de independência em relação à política monetária norteamericana, enquanto passo inicial da retomada da soberania territorial alemã e européia, em face da ocupação norte americana, territorial e mercadológica.


Manter a Libra Esterlina e não aderir ao Euro, instrumentaliza melhor a Inglaterra para enfrentar a crise econômica, pois permite ao Estado Inglês utilizar-se autonomamente dos vários instrumentos de política monetária e de política fiscal que achar convenientes. Isso não é possível aos países que aderiram ao Euro, pois sua política monetária é restrita às regras do Banco Central Europeu; e sua política fiscal deve respeitar limites de endividamento máximo estabelecidos para a UE. 


Mas, muito além disso, não aderir ao Euro e, principalmente, fortalecer a parceria com os EUA, viabiliza para a Grã-Bretanha o enfrentamento do poderio econômico alemão.     

Essa a grande razão de a Inglaterra não ter aderido ao Euro: permanece em alinhamento político com os EUA na Europa; reconhece também que somente aliada aos EUA poderá enfrentar a hegemonia econômico-financeira alemã. A estratégia inglesa de ressuscitar a City de Londres somente poderá ter sucesso caso se estabeleça a parceria com os EUA. Aderir ao Euro seria abandonar essa estratégia, ocupar posição secundária na Europa e ali perder a condição de defensora dos interesses norteamericanos.

A moeda única européia surge como um símbolo de efetiva delimitação de espaço econômico vital, do âmbito de controle estratégico das relações econômicas.

Minar o Dolar e o poderio econômico norteamericano na Europa, limitar o uso do Dolar nas negociações entre países europeus e, em um segundo momento, impor o Euro ao resto do mundo, ocupando espaço do Dolar, esse é o grande objetivo da União Européia.

Isso significaria garantir o próprio mercado europeu aos países europeus; e, em seguida, conquistar os mercados do Dolar para os países europeus e seus produtos.


              O Dólar no comércio do petróleo e a Guerra do Iraque.

Para rememorar, a guerra do Iraque pode ser lembrada como um momento de definição da permanência do Dólar no mercado do petróleo, como um espaço para o dólar, pois Sadam Hussein impusera negociações em Euro para o petróleo iraquiano. Isso não pode ser esquecido.

Para além da Guerra do Iraque, a luta norte americana pela manutenção do Dólar como moeda internacional continuou sob a forma de chantagem econômica e militar. 


             Chantagem atômica para manutenção do Dólar como moeda internacional


Por um lado, as visitas de Hillary Clynton, como Secretária de Estado, à China, ao Japão e à Alemanha, logo no início do governo Obama, destinaram-se a garantir a presença dos governos desses países no mercado financeiro internacional, viabilizando a colocação de títulos governamentais norte americanos e o consequente financiamento dos gastos públicos dos EUA. Com Alemanha e Japão, essa parceria data dos anos 70; com a China, dos anos 90.


Por outro lado, o acordo atômico entre EUA e Índia, em 2010, funcionou como uma chantagem militar contra a China e contra seu pleito por uma nova moeda internacional: uma ameaça de equipar a Índia com arsenal atômico moderno, no caso de rompimento do acordo de sustentação do dólar e da dívida pública norte americana pela China. 

O movimento chinês e dos BRICs em prol de uma nova moeda internacional é um recado em contrário a esse interesse norte americano e à continuidade da parceria monetário-fiscal sino-americana. E força os EUA a um rápido ajuste do qual os sinais evidentes ao público são a descontinuidade das guerras do Iraque e do Afeganistão, a tentativa de revitalização da política fiscal norte americana por Obama, por meio da tributação aos mais ricos e redução dos benefícios fiscais às grandes corporações. E também a injeção de recursos na economia através da compra de títulos governamentais no mercado financeiro, os Quantitative Easing, QE1 e QE2.

             Hesitação Alemã e Francesa, temor da inflação e de seu impacto eleitoral abrem espaço para atuação intensa do FMI na Europa 


Neste outubro/2011, Alemanha e França ainda hesitam em apoiar a Grécia, Portugal, Itália e Espanha, por meio da liberação de recursos lastreados em novas emissões monetárias pelo Banco Central Europeu.

Mas, emitir moeda para salvar o Euro é compatível com o plano estratégico alemão de longo prazo. Mas essa medida aterroriza economistas, autoridades monetárias e eleitores alemães que vislumbram no horizonte a sombra da hiperinflação que arrazou a Alemanha nos anos 20 do século passado.

A missão de Ângela Merkel é convencer os eleitores alemães – ainda que não possa afirmá-lo com todas as palavras –  que deve ser dada continuidade ao plano estratégico longo prazo do país, que já obteve relativo sucesso na primeira etapa, a de unificação das duas Alemanhas.


Sob esse impasse, o FMI abre seu âmbito geográfico de atuação, antes circunscrito aos países  em desenvolvimento. A Alemanha reage lançando a proposta da criação de um FMI exclusivamente europeu, mascarando a inoperância do Banco Central Europeu ao longo da crise. 


             Estratégia possível para a Alemanha

Para a chancelaria alemã resta ainda fortalecer a União Européia e o Euro para posicioná-lo como a moeda de trocas internacional e para garantir o mercado europeu para o empresariado alemão e europeu:
(a) apoiando no curto prazo as medidas norteamericanas no sentido da valorização do yuan, no que isso representa de perda de competitividade dos produtos chineses na Europa e demais países;
(b)  rechaçando as investidas chinesas e dos demais BRICs para estabelecimento de uma nova moeda internacional distinta do Dólar, enquanto a Europa está enfraquecida e a China, fortalecida;
(c) apoiando os planos de regulação e recuperação do sistema financeiro europeu;
(d)  apoiando a estabilização das economias das nações européias;
(e) negociando acordos comerciais com outras áreas de comércio de nações, como o Mercosul, e com países, de modo a garantir espaços de comércio para produtos europeus;
(f) boicotando o ressurgimento da Citi Londrina como centro financeiro mundial;
(g) buscando que sejam direcionados recursos dos BRICs à compra  direta de títulos da dívida soberana grega, espanhola, portuguesa e italiana, ao invés da mera disponibilização de recursos dos BRICs à capitalização do FMI, para que fique por conta do Banco Central Europeu, e não do FMI, o direcionamento de recursos e o monitoramento da economia, da política fiscal e da política monetária dos países europeus em dificuldades.


             O combate alemão à inflação no curto prazo é incompatível com o plano alemão de longo prazo de reconquista da soberania territorial e mercadológica alemã e européia

No momento, considerada a estratégia alemã de longo prazo, a mais importante missão de Ângela Merkel é menos o controle das emissões monetárias pelo Banco Central Europeu e o eventual processo inflacionário que delas poderia resultar; e muito mais o rápido apoio à Grécia e soerguimento da economia de Espanha, Itália, Portugal e Irlanda.

Interesses imediatistas e eleitorais podem já estar obnubilando o projeto alemão de longo prazo. Mas, tal como Helmut Kohl passou para a história por reunificar as duas Alemanhas – a RFA e a RDA, comemorada em 03.10.1990, e que completa neste mês onze anos  – Angela Merkel igualmente poderá passar para a história como a chanceler que impediu o desmoronamento da UE sustentando a permanência do Euro. Poderá ser reconhecida por ter sustentado as bases para a independência européia em relação à política monetária norte americana e para certo isolamento europeu em relação à decadência do dólar, bem como para uma distante reconquista da soberania mercadológica e territorial pela Alemanha e pela  Europa.  

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ENGESSAMENTO DO BB SERVE AO SANTANDER


O engessamento do BB serve ao Santander, diz economista

Revista Brasília,  07.10.2011

Nos últimos dias, o Banco do Brasil tem sido acusado de esvaziamento de suas diretorias em Brasília em prol da cidade de São Paulo. A ministra da Casa Civil, Gleisi Helena Hoffmann, reuniu-se com a direção do BB para debater o assunto e trazer solução que harmonize os interesses envolvidos.   Com relação ao tema, a Revista Brasília entrevistou o economista Wilson R. Correa (60), ex-funcionário do BB, atual CEO da MP Consultoria, que falou sobre o assunto.

Revista Brasília – Dr. Wilson, qual a avaliação que faz da transferência para São Paulo de diretorias do Banco do Brasil e da Caixa Federal ?

Wilson R Correa – Essa é uma questão extremamente delicada, que nos reporta à transferência da Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília. Naquela ocasião, diversos setores da sociedade carioca manifestaram-se contrários e mantiveram essa posição até recentemente, quando da minissérie JK, da TV Globo que, parece, deixou mais claros os objetivos e o projeto desenvolvimentista. Foi um sacrifício enorme do País, falta de cimento, ferro, matérias primas, o custo de tudo isso aumentou nas grandes capitais do País e gerou muita oposição em São Paulo, Minas e outros estados. A transferência trouxe o desenvolvimento para Brasília, mas apequenou o Rio de Janeiro, que somente agora se ergue, com o desenvolvimento trazido pelo PréSal. Brinco dizendo que, na ocasião, sobrou para o Rio apenas a TV Globo, a antiga fábrica de sabão UFE, a fábrica de sardinhas Gomes da Costa, o turismo, é claro, além de uma grande frustração do Rio de Janeiro, por deixar de ser capital federal, e de Niterói, por deixar de ser capital estadual e ter de tornar-se uma cidade do interior.

Revista Brasília –  Sim, mas e hoje ?

Wilson R Correa – Hoje, alguns brasilienses estão alimentado o temor de esvaziamento econômico do DF. Não acredito nisso. Primeiro, porque o Banco do Brasil tem em seu DNA o desenvolvimentismo e abraçou a causa da fundação de Brasília. Creio que foi o primeiro órgão público a transferir-se para Brasília, indo ocupar o prédio que hoje é a sede do BRB, no Setor Bancário Sul. É um banco historicamente integrado a Brasília, à sua concepção, ao seu projeto de interiorização do desenvolvimento, que abraçou e conduziu. Não se espante, conduziu sim. Devemos nos lembrar que o BB, na ocasião, era o Tesouro Nacional Brasileiro, função que atualmente é desempenhada pela Secretaria do Tesouro Nacional, fundada apenas em 1986. O BB era o que hoje é o nosso Banco Central, desempenhava as funções do controle da moeda e do crédito, que foi fundado apenas ao final de 1964. Era também o nosso banco de comércio exterior, através de sua CACEX, extinta pelo presidente Collor em 1990 e não substituída, em prol do projeto de liberalismo cambial pleno.
Em segundo lugar, a transferência da diretoria BB para São Paulo, que estava sendo implementada, era apenas de um segmento da Vice-Presidência, que cuida do crédito às grandes empresas. Esse segmento é responsável pela idealização e design de produtos específicos para esse nicho de clientes, com os quais, por força dessa modelagem, têm que estar onde os clientes estão. Isso é um imperativo. Assim como no caso da música do Milton Nascimento, que diz que o artista deve estar onde o povo está, o banco deve estar onde os clientes estão. Isso é regra. Dê uma espiada onde estão instalados o Safra, o Santander, o Bradesco e o Itaú. Há milhares de cidades no Brasil onde nenhum deles está. Porque ? Porque eles estão onde estão aqueles que esses bancos elegeram como seus clientes. O BB, como é de conhecimento de todos, está em mais de 90% das cidades brasileiras.

Revista Brasília –  Mais alguma razão ?

Wilson R Correa – Bom, em terceiro lugar, não acredito no esvaziamento de Brasília com essa transferência, porque o povo brasileiro e as empresas do País descobriram o interland brasileiro e ambos acorrem para o centro oeste buscando novas oportunidades de trabalho e qualidade de vida, que não mais são encontradas em São Paulo, por exemplo. E estou falando de pessoas de classe média. Sampa tem seu fascínio, claro, mas a vida ali está muito difícil de suportar. Ah, sim, não podemos esquecer – em quarto lugar – que os executivos das grandes empresas, a alta gerência não tem lugar específico para trabalhar permanentemente. Em um dia, numa cidade; em outro, em outro país; amanhã no Rio, depois, conduzindo um projeto no Peru, no Japão, na Bélgica. Sua família, geralmente, fica num ponto eqüidistante, se possível, junto dos demais familiares, em local com aeroporto internacional. Pouco provável que aqueles que estavam se transferindo para São Paulo, estivessem levando todos os filhos, esposa ou esposo. Vida de executivo é um dança permanente. Assim, pouco provável que a renda da cidade pudesse cair, não só porque a família dificilmente se transferiria para São Paulo por completo, mas porque a maior parte de seus gastos permaneceria na capital federal.

Revista Brasília – Alguma outra razão ?

Wilson R Correa – Há algo também muito importante que é a questão do brain drain, ou drenagem de cérebros. O maior centro mundial de desenvolvimento de tecnologias é reconhecidamente o Vale do Silício na Califórnia. Para ali correm as melhores cabeças, as maiores competências nesse área. São Paulo, no Brasil, é o local onde se encontram as maiores competências em mercado financeiro. Ao ponto de ser desacreditado, no mercado financeiro, o profissional de finanças que não está estabelecido em Sampa. Estar longe do cliente é crime de lesa competitividade. Para subsistir nesse mercado, o BB tem que estar lá com sua diretoria, almoçando com os diretores financeiros das empresas, com seus presidentes, têm fazer parte da comunidade local. Todos sabem o que é o cerimonial japonês para fazer negócio. Você tem que estar muito próximo deles para, depois de algum tempo, ganhar sua confiança. Há pessoas que ingenuamente acreditam que nós, brasileiros, não temos algo parecido. Temos sim; não tão delicado quanto o cerimonial japonês, mas há uma diplomacia empresarial brasileira. Não tenho dúvidas.

Revista Brasília – Mas então, a que o Sr. atribui essa celeuma toda em torno do caso de transferência da diretoria para o Banco do Brasil ?

Wilson R Correa – Antes é importante frisar que diretoria, no caso do BB, é apenas uma área eminentemente técnica. Muitos anos atrás corresponderia a um departamento. As áreas de poder, estão localizadas na presidência e nas vice-presidências Estas ficam em Brasília e não vão mudar. Empréstimos da maior monta são decididos em reuniões do Conselho Diretor, em que se reúnem o presidente, os vice e alguns diretores envolvidos com a operação analisada.
Mas objetivando a resposta à sua pergunta, há muitos interesses envolvidos nesse, que poderíamos chamar, engessamento do BB. Quando o BB iniciou seu projeto de gestão estratégica, por volta de 1988, a participação do BB no mercado paulista não era mais que 4%, consideradas as operações de financiamento e os depósitos. Banespa, Bradesco e Itaú dominavam o mercado. Com a venda do Banespa ao grupo espanhol Santander, imaginávamos, nós da MP Consultoria, o que seria esse day after. Lançamos até um produto com esse nome em que estimávamos o market share de cada participante do mercado, seus produtos e as possibilidades de migração de clientela do Banespa aos demais, além do Santander. O fato é que Santander conseguiu segurar parcela expressiva da clientela do Banespa; e Itaú e Bradesco continuam com elevado share porque, notavelmente, criaram entre si um índice de repulsa mútua que garantiu a estabilização de seu share. Para explicar, é um pouco daquela coisa que existe entre as torcidas do Corinthians e Palmeiras, do FlaFlu, do Grêmio e Internacional. Essa força de oposição mantem essas torcidas unidas contra um adversário comum. Estudamos essa questão e observamos que isso ocorre no caso de Bradesco e Itaú; isso tem garantido para esses bancos a clientela ao longo do tempo. Parece ser um caso único no mercado bancário nacional. Assim, o Santander foi o grande beneficiário da privatização do Banespa. E esse movimento de transferência de diretorias do BB para São Paulo poderia desestabilizar a distribuição da clientela paulista, afetando principalmente o Santander. Esse é, ao meu ver, o grande beneficiário desse engessamento do BB. Mas não creio que ele tenha exercido influência política nas decisões governamentais que resultaram no cancelamento da transferência da diretoria do BB para São Paulo.

Revista Brasília – E a autonomia do Banco do Brasil ?
Wilson R Correa –  O Banco do Brasil é uma empresa de economia mista. O Tesouro Nacional possui a maioria de suas ações nominativas e o Banco deve reportar-se aos interesses do Estado Brasileiro. Acredito mesmo que a   presidente Dilma deve ter atuado no sentido de conter eventual esvaziamento de Brasília, no melhor  interesse público, não tenho dúvidas a respeito.

Revista Brasília – E a Caixa Econômica Federal ?

Wilson R Correa –  É outro banco do Estado Brasileiro que cumpriu um papel essencial no enfrentamento da crise, a partir de 2008, até os dias de hoje. Em termos de manutenção do emprego no País, a partir do crédito à construção civil e notadamente ao programa governamental de construção de casas populares. E determinante que esse banco se fortaleça em São Paulo, onde se encontram as grandes empresas. CAIXA e BB são imprescindíveis ao País. A crise econômica demonstrou isso e até a tradicional revisa econômica inglesa The Economist o reconheceu.

Revista Brasília – Então, que ações e reações os demais bancos demonstraram ?

Wilson R Correa – Certamente, os serviços de inteligência dos bancos privados captaram essa movimentação do BB. Trata-se de um mercado ultracompetitivo, que mantem todos em alerta permanente. E as notícias voam. Os próprios diretores financeiros das empresas demonstram, em conversas com os gerentes de suas contas bancárias, a existência de incursões de gerentes dos demais concorrentes, buscando a conquista plena de seus negócios. Mas, os bancos privados têm uma voz, Dr. Armírio Fraga. Não se manifestou específicamente sobre esse caso, mas no passado recente já tornou evidente sua posição.

Revista Brasília  –  Armírio Fraga, o ex presidente do Banco Central ?

Wilson R Correa – Exatamente. Mas eu diria que, recentemente, há uma segunda voz, a do presidente da Febraban, Dr. Murilo Portugal, que há pouco tempo deixou uma diretoria do FMI. Armírio Fraga revelou em uma matéria de página inteira no jornal Valor, em 2010, que a presença do BNDES na economia brasileira deveria ser reduzida, pois estaria ocupando o mercado que, por natureza, segundo ele, deveria ser ocupado por bancos privados. Isso aconteceu antes desse recente aprofundamento da crise internacional. Até aquela ocasião, os bancos estrangeiros tinham limpado suas contas no País para apoiar suas matrizes em processo pré-falimentar na Europa e EUA. O City, por exemplo, raspou o caixa aqui; e não foi a primeira vez, às portas da falência no exterior, abandonou seus clientes brasileiros ... que migraram de banco. E os bancos brasileiros, por conta do risco de crédito, fecharam as portas de seus cofres às demandas empresariais de crédito para capital de giro e capital de investimento. Todos devem estar lembrados que o ministro Mântega disse, “olha, não façam isso, vocês vão perder mercado, depois vão se arrepender”, com essas palavras, noticiado no Valor. Ouvidos moucos. Mântega mandou o Tesouro Nacional capitalizar o BB, a Caixa e o BNDES e esses bancos sustentaram a subsistência das atividades produtivas brasileiras através de suas linhas de crédito. Ganharam participação, share, como se diz no mercado, que hoje buscam retomar. No momento atual, repete-se a elevação de risco de crédito, capitais fogem do País, bancos estrangeiros já remeteram às matrizes cerca de US$2 bi, nos últimos doze meses. Talvez mais. Aliás, como a expressiva maioria das multinacionais aqui instaladas. Armírio Fraga já deu seu recado, que talvez tenha sido um meio de valorizar seu banco de investimentos, vendido a um grupo estrangeiro logo em seguida àquele artigo. Mas não houve qualquer manifestação pública sua sobre o caso da transferência do BB para Sampa.

Revista Brasília  –  E o Dr. Murilo Portugal ?

Wilson R Correa – Bom. Nós sabemos que a nova direção do FMI é muito menos tradicionalista em termos de política monetária do que já foi no passado. E Portugal é um técnico que já foi Secretário do Tesouro Nacional nos tempo de neoliberalismo acirrado nas políticas fiscal e monetária brasileira. Talvez não lhe restasse espaço para seu trabalho como diretor do FMI. Assim, o posto de presidente da Febraban lhe fosse mesmo mais adequado. Há uma matéria do jornalista Cristiano Romero, no jornal Valor, de 05.10.2011, em que Murilo Portugal destaca uma visão menos sombria da Europa, como que desdizendo o diagnóstico feito pelo Banco Central do Brasil que justificou a queda dos juros Selic. Discretamente, não é mencionada na entrevista nada a respeito dos juros Selic. Ele apenas desqualifica o diagnóstico do Bacen; e, claro, com isso destrói a lógica da redução dos juros pelo Bacen. É o perfil lowprofile da Febraban. Marketing super competente, discrição absoluta. Outros falam por ela: jornalistas econômicos rezam a necessidade de juros altos. Ela não precisa falar, melhor assim. Quero dizer que Portugal é um portavoz discreto dos bancos privados. Armírio é mais incisivo e evidente. Ainda assim, nenhum deles manifestou-se diretamente sobre o caso BB-São Paulo.

Revista Brasília  –  Porque a mudez também do BB ? Não se diz que o BB tem uma bancada no Congresso Nacional ?

Wilson R Correa – A direção do BB é composta por técnicos de carreira, servidores, profissionais discretos. Homens de finanças são assim por natureza. Perfil pessoal necessário ao papel. Aliás, porque se insurgir contra o poder presidencial? Discrição é a melhor arma, consegue-se realizar muito mais e negociar muito melhor discretamente.  Sobre a bancada no Congresso, não há sinais de sua existência, sabe-se alguns deputados e senadores tem compromissos financeiros, negócios rurais e urbanos, empréstimos junto ao BB. Isso não garante apoio nem manifestos contra o governo Dilma, que está mais popular que o governo Lula. Alem disso, um pito faz bem à popularidade da presidenta.

Revista Brasília  –  Que interesses estariam mobilizando o senador Rodrigo Rollemberg ao dirigir o movimento contra a transferência da diretoria do BB para São Paulo ?

O senador Rodrigo Rollemberg está conduzindo o movimento pela permanência da diretoria do BB em Brasília. Talvez tenha informações de que não disponho, ou vice versa. Não está ligado ao agronegócio, ao contrário, atualmente preside a comissão do Senado que reestuda o projeto de Código Ambiental aprovado pela Câmara. Creio que sua presença no movimento contra a transferência deve-se ao ideário de proteção de Brasília contra o esvaziamento econômico, luta permanente dos deputados e senadores brasilienses, que extrapola cores partidárias. É é muito louvável. Sei que é um excelente articulador político.

Revista Brasília  –  Bom. Qual deverá ser o resultado final desse embroglio ?

Wilson R Correa –  Haverá um meio termo, espero. Pois o fortalecimento do BB em São Paulo e também da CAIXA é imprescindível para o enfrentamento da retomada da crise econômica, considerada a elevação de risco de crédito, o novo contigenciamento de crédito dos bancos privados aos empresários brasileiros e a elevação da remessa de recursos financeiros de bancos estrangeiros que atuam no Brasil às suas matrizes nos EUA e na Europa.

Revista Brasília  –  obrigado pela entrevista.

Wilson R Correa – A satisfação foi toda minha. Parabéns pela Revista Brasília. 

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

LANTERNA NA MÃO E DESIGN DO FUTURO



Neste início de outubro/2011, o momento continua sendo de grande instabilidade na economia e no mercado financeiro internacional. O pano de fundo é o vultoso déficit público dos EUA e dos países europeus originado preponderantemente, em 2007 e 2008, no socorro aos grandes e pequenos bancos fortemente impactados na fase inicial da crise. 

Homens do mercado financeiro e sua fiel escudeira, a grande imprensa, buscam ocultar esse diagnóstico e recitam o velho jargão de que o déficit público desses países resulta de administrações públicas perdulárias e da antiquada sociedade do bem estar, com suas aposentadorias, assistência à saúde e à educação, proteção legal ao emprego e apoio financeiro temporário aos desempregados. O receituário ?!?! Cortes nesses gastos, reformas trabalhista, previdenciária e fiscal para desonerar investimentos empresariais.

O mote do noticiário é a desmoralização dos norte americanos que nas ruas manifestam-se contra os recursos biliadários utilizados no salvamento de bancos, que sequer cortaram bônus e gratificações às próprias diretorias. São anarquistas ! Gregos, franceses, portugueses que foram às ruas contra os cortes de gastos do governo em educação e saúde ? Marajás !

O banco franco-belga Dexia é a face recente do perfil da crise européia e exemplo das condições precárias dos grandes bancos. Excessivamente exposto aos títulos da dívida grega, deve receber aporte biliardário dos governos da Bélgica e da França para manter-se no mercado. Mas, ao seu lado, o Société Generale e o BNP Paribas, todos sob o efeito da crise da dívida soberana européia, resistem à pressão reguladora das autoridades monetárias no registro adequado de “títulos podres”. Os três bancos teriam de assumir prejuízo de cerca de €3 bilhões. Especialistas projetam necessidade de aporte de €600 milhões pelo BNP Paribas e de €5 bilhões pelo Société Generale como capitalização necessária para aquela adequação contábil estabelecida no Acordo Basiléia III de regulamentação bancária, de setembro/2010.

A crise impacta bolsas de valores por todo o ocidente e oriente, bolsas de mercadorias e os mercados cambiais. É momento de grandes ganhos por especuladores que jogam com as expectativas que eles mesmos manipulam com o noticiário, farto em evidências da insegurança dos governos sobre os melhores caminhos, dos políticos e do rumo de suas candidaturas, das empresas e de seu  stop and go de projetos de investimentos, e do cidadão, frequentemente perdido nesse emaranhado, buscando manter suas economias.

Inequivocamente, é um momento de grandes oportunidades aos que puderem antever a configuração e os rumos da sociedade e dos mercados. As fusões e incorporações de grandes empresas bem demonstram que o grande capital está atento e encontra-se em curso uma redistribuição dos mercados entre os participantes preexistentes e os novos, surgidos das fusões.

O povo nas ruas nos países avançados, novos países na liderança mundial e decadência de grandes potencias européias, nova consciência e formação social no mundo árabe, novos produtos, novas tecnologias, novas fontes de energia, a mudança está em curso acelerado.  

E o design do futuro, construído no presente a cada momento, ainda não está plenamente claro. Contudo, pode-se observar as seguintes tendências: 

a) diluição de parcela do poder hegemônico norteamericano entre alguns outros países;

b) direcionamento da política mundial para algo um tanto menos distante de uma relativa democracia entre nações, com papel crescente da ONU na formalização das definições de interesse da comunidade de nações;

c) reestruturação da ONU e de seu Conselho de Segurança;

d) admissão da Nação Palestina na ONU;

e) ascenção do poderio militar chinês e sua projeção para o Oceano Índico e costa oriental da África, não sem conflitos diplomáticos com a Índia;

f) projeção de poder ocidental pela OTAN sobre o Atlântico Sul para conter o avanço chinês;

g) estagnação da economia européia pelos proximos quatro ou cinco anos, quando junto com a economia norteamericana poderá ensaiar alguma recuperação, ao final do mandato presidencial do próximo presidente dos EUA; 

h) surgimento e implantação paulatina de uma nova moeda para as trocas internacionais, calcada em uma cesta de moedas;

i) alteração ainda lenta da matriz energética mundial por meio da ampliação das fontes de energia, com incorporação da energia eólica e solar, em vista do barateamento da tecnologia para o seu emprego, notadamente entre os países maiores consumidores, mas com predominância da energia nuclear, cujos projetos não foram cancelados, mesmo com o acidente nuclear do Japão;

j) estagnação do mercado de carbono do MDL da ONU, pelos próximos quatro ou cinco anos, em vista da crise econômica européia e a redução de emissões de carbono que esta acarretou;

k) desenvolvimento de tecnologia para retenção de carbono proveniente de emissões pelo uso de carvão, ainda mantido com importância predominante no Reino Unido, China e outros países asiáticos;

l) retomada do desenvolvimento econômico dos países europeus e dos EUA, calcado sobre as bases produtivas de uma economia limpa, a partir de 2015-16, com o desenvolvimento e intensificação da produção limpa de produtos sustentáveis, estabelecendo nova parametrização para o desenvolvimento capitalista mundial.
 

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

BNDES EM TOM MENOR PARA O CENTRO OESTE DO BRASIL





É patente há séculos o desequilíbrio econômico e social entre as diversas regiões brasileiras. Em função disso, desde a criação da SUDENE, em 1959, e da SUDAM, em 1966, o Estado Brasileiro desenvolve políticas compensatórias em favor do Nordeste, do Norte e também do Centro Oeste brasileiro, objetivando o nivelamento econômico dessas regiões com o Sul e Sudeste do País. 


Alem dessas iniciativas, deve igualmente ser lembrada a criação do Banco da Amazônia, BASA, em 1950, e do Banco do Nordeste, em 1952, ambos pelo governo Getúlio Vargas, destinados a apoiar com crédito os projetos de investimentos dirigidos a duas regiões. 

O grande alento da região Centro Oeste, por sua vez, foram os investimentos realizados para a transferência da capital federal para Brasília, que gerou efeitos multiplicadores importantes para toda região. Alem desse, outro fator de avanço econômico do Centro Oeste foi o trabalho inovador da Embrapa ao desenvolver sementes de soja próprias ao solo e clima dessa região. Essa conquista tecnológica viabilizou a atividade agrícola no Centro Oeste nos anos 70 e proporcionou o carreamento de novos recursos humanos, financeiros e tecnológicos.

O BNDES é outro banco de desenvolvimento criado pelo governo Vargas, em 1952, e seu âmbito geográfico de atuação alcança todo o território brasileiro. O Banco mantem presença importante nas regiões NO, NE e CO, a despeito de suas operações de crédito favorecerem preponderantemente as regiões Sudeste e Sul; e, notadamente, as grandes empresas, que absorveram 72,9% de seus créditos em 2010.

Neste exato momento, a crise econômica internacional traz reflexos importantes que se fazem sentir sobre a economia brasileira, em especial sobre o desenvolvimento regional. Entre eles encontra-se a aceleração das remessas de lucros e dividendos ao exterior pelas empresas internacionais às suas matrizes na Europa e EUA.

Nos doze meses completos em julho/11, essa sangria atingiu US$34,2 bilhões, valor próximo aos US$34,9 bilhões atingidos em set/08, ocasião do início da crise. O sistema de câmbio livre defendido ferozmente pela banca privada internacionalista e seus intelectuais tem viabilizado essa movimentação passiva de capitais em detrimento da economia do País e em favor das empresas multinacionais.

Bancos privados estrangeiros remeteram ao exterior US$1,9 bilhão nos doze últimos meses, 33% acima do verificado em igual período do ano anterior, noticia o jornal Valor em 14.09.11; e as indústrias, US$3,1 bilhão (+12%). E o setor de telecomunicações, US$3,2 bilhões, de janeiro a julho/2011.

Nesse quadro de evasão de recursos é negativo o efeito dessa movimentação sobre o desenvolvimento regional e intersetorial. Há sinais claros de que os bancos brasileiros, movidos pela elevação do risco de crédito, e os bancos estrangeiros, também pela redução de suas disponibilidades, já reduzem os montantes de empréstimos e promovem a concentração de créditos nas regiões Sul e Sudeste. Tanto para capital de giro, quanto para capital de investimento, essa concentração regional se dá segmento de grandes empresas.

Desse modo, as regiões Centro Oeste, Nordeste e Norte tornam-se paulatinamente desatendidas pelos bancos privados e dependentes, quase que de forma exclusiva, dos empréstimos dos bancos regionais oficiais.

Entendendo que a demanda de empréstimos para capital de investimento possa estar sendo atendida, através dos Fundos Constitucionais, pelo BASA, BNB e pelo BB, no Norte, Nordeste e Centro Oeste, respectivamente, e pelo BNDES, o suprimento de capital de giro às empresas resta, por sua vez, como a questão crítica pendente de solução.

A demanda de crédito para giro empresarial vinha sendo atendida crescentemente        pelos bancos privados. Estes provocam agora uma inflexão na curva de oferta desse crédito, sob o temor do risco de crédito e impulsionados pela menor disponibilidade de recursos trazida pela intensificação das remessas ao exterior.

O BNDES tem uma linha de crédito denominada PROGEREN, especial para empréstimos para capital de giro empresarial, voltada a micro, pequenas e médias empresas do setor industrial. Os juros estão por volta de 1,0% ao mês; prazo de 36 meses para pagamento, com 12 de carência. São R$10,4 bilhões previstos no orçamento previsto em 2011 para esta linha.

Excepcionalmente para as regiões Norte e Nordeste, essa linha atende também o setor de comércio e serviços. No Plano Estratégico do BNDES a região Centro Oeste não é atendida com essa mesma excepcionalidade, embora seus índices de desenvolvimento a situem muito abaixo dos indicadores das regiões Sul e Sudeste, tal como as regiões Norte e Nordeste.

Importante observar que as regiões Norte, Nordeste e Centro Oeste contam apenas com os créditos para capital de investimento, os chamados Fundos Constitucionais, oferecidos do Banco da Amazônia (FNO), Banco do Nordeste (FNE) e Banco do Brasil (FCO), respectivamente. Contudo, essas linhas não oferecem empréstimos para capital de giro desvinculadamente de projetos de investimento, que são a grande demanda empresarial também do setor de serviços, diante do rigor e contingenciamento de crédito internalizado no País a partir da expansão da crise internacional.

Mas, as operações de capital de giro empresarial do BNDES, o Progeren, são oferecidas apenas ao setor de comércio e serviços para as empresas do Norte e Nordeste.

Atividades essenciais, como telefonia e telecomunicações, como serviços de saúde, como manutenção elétrica de usinas, do gazoduto Brasil-Bolívia, por exemplo, de Universidades, de organizações voltadas à arte e cultura e à prestação de serviços aos órgãos públicos da Federação e dos Estados, além muitas outras atividades relevantes do setor de serviços estão encontrando dificuldades na operacionalização de suas atividades pelo fechamento da torneira do crédito para capital de giro.

Diante desse reflexo da crise econômica internacional sobre a economia daquelas três regiões, aguarda-se ansiosamente a revisão imediata do plano estratégico do BNDES; e, nessa revisão, duas medidas: (1ª) a inserção do Centro Oeste no rol das áreas do País atendidas pelas operações PROGEREN nos segmentos de comércio e serviços; (2ª) a reativação do Progeren para esses segmentos, inclusive para o Norte e o Nordeste, hoje suspensa, como informado no site do BNDES. Isso tudo em prol:

  • do tratamento isonômico entre os Estados com menor grau de desenvolvimento relativo, do Centro Oeste, Nordeste e Norte, em face das Regiões Sul e Sudeste;

  • da superação das limitações de crédito de giro, trazidas pela retração dos financiamentos dos bancos, uma vez mais observável desde 2008;

  • da efetiva desconcentração do crédito nas regiões Sul e Sudeste e no segmento de Grandes Empresas, neutralizando a tendência de concentração trazida pela crise econômica internacional. 

    domingo, 4 de setembro de 2011

    REGULAÇÃO DO MERCADO FINANCEIRO, A NOVA GRANDE BATALHA

    Resultado da crise econômica mundial em curso, a tendência do momento atual é de retomada da regulação do mercado financeiro, seja pelas autoridades monetárias de cada país, seja pelo conjunto de nações reunidas em comunidades, como é o caso da União Européia. A meta tende a ser a busca de novo modelo de integração internacional em bases distintas do fundamentalismo de mercado que ganhou corpo desde os anos 80, de modo a ser fortalecido o controle dos movimentos de capitais pelo Estado.


    O estabelecimento dessas novas bases de operação e de regulação do sistema financeiro dá-se em meio a terrível queda de braço pelas forças em oposição envolvidas.


    De um lado os bancos centrais e autoridades econômicas dos países, ao lado de organizações como a United Nations Conference on Trade and Development, a UNCTAD da ONU; e também, inacreditavelmente, o FMI. 

    De outro, encontram-se as instituições financeiras nacionais, os grandes bancos internacionais, as organizações que os aglutinam e representam, a OCDE e os lobistas, as empresas de consultoria a bancos e os financistas,  defensores intransigentes do fundamentalismo laissez-faire de mercado.

    O Brasil é locus de experimentação e vanguarda no estabelecimento dessas novas bases regulatórias. A experimentação brasileira é objeto de curiosidade e avaliação internacional de organizações como o FMI. A contragosto da banca e dos financistas, pode prestar-se como modelo às autoridades econômicas dos demais países.

    A UNCTAD divulgou um estudo [1] em 2009 em que avaliou a crise economia em curso, identificou a natureza e a dimensão dos problemas e apresentou soluções.  Uma das soluções propostas foi a implementação de uma forte governança monetária e financeira internacional. A alegação para tal foi que “a dinâmica da crise reflete a existência de falhas na desregulamentação financeira nacional e internacional, desequilíbrios persistentes, inexistência de um sistema monetário internacional e inconsistências profundas entre o comércio global e as políticas monetárias e financeiras."

    O entendimento da UNCTAD é o de que falhou dramaticamente o fundamentalismo de mercado que reinou hegemônico dos anos 80 até 2009. A desregulamentação do mercado financeiro criada por esse fundamentalismo trouxe a maximização das posições de riscos elevado que “empurraram a economia global para uma deflação da dívida, que somente pode ser contida por uma inflação da dívida”.  Alem disso, a fé cega na eficiência do mercado financeiro desregulado e a ausência de um sistema financeiro e monetário cooperativo criou a ilusão de rendimentos livres de riscos. 

    Para se contrapor a esse quadro, a UNCTAD avalia que o mais importante é conter a queda da demanda e do preços dos ativos, bem como revigorar a capacidade do setor financeiro de prover créditos aos investimentos produtivos, estimular o crescimento econômico e evitar a deflação dos preços. 

    Segundo a UNCTAD, o objetivo mais importante da reforma regulatória tem que ser a “extirpação da sofisticação financeira sem retorno social”. As falhas sistêmicas somente seriam solucionadas por meio de ampla reforma e “reregulamentação”, com um forte papel para o conjunto de governos trabalhando em uníssono, pois, contrariamente à perspectiva tradicional, os “governos estão bem posicionados para julgar os movimentos de preços nos mercados financeiros e não deveriam hesitar em intervir ao se depararem com maiores desequilíbrios”. 

    A UNCTAD observou que o preço das comoditires e a volatilidade  tem sido afetadas pelo crescente papel e grande peso de investidores financeiros no mercado futuro de comodities,  o que provocou o surgimento de bolhas especulativas  durante o boom e seu estouro após o choque do subprime.  

    Como solução para esse problema, a UNCTAD recomendou no estudo “o maior acesso das autoridades regulatórias aos dados comerciais de modo a habilitá-las a compreender melhor o que provoca o movimento de preços e a intervir em certos mercados problemáticos, enquanto as principais brechas na regulamentação precisam ser fechadas para assegurar que posições no mercado corrente desregulado não conduzam à especulação excessiva.” 

    Além disso, a ausência de um sistema financeiro cooperativo para administrar flutuações do câmbio tem facilitado, segundo a UNCTAD, especulações com moedas e aumentado os desequilíbrios globais. Considera que os países em desenvolvimento não podem ser submetidos a uma crise de rating pelo mesmo sistema financeiro que criou seus problemas. Para evitar o colapso do sistema de comércio internacional e para manter a estabilidade global, são necessárias urgentes arranjos cambiais multilaterais e globais.

    O teor dessas análises bem demonstra que a razão da ira contra a ONU pelos ultraconservadores que dominaram Washington, ao longo dos oito anos de governo de George W. Bush, não se deveu "tão somente" ao intento de inspeção pela ONU do arsenal atômico norteamericano, às inspeções solicitadas pela AIEA que sempre lhe foram negadas; ou ao interesse da ONU pela negociação e implantação do Estado Palestino no território ocupado por Israel: a ONU é contrária ao liberalismo ultraconservador e à desregulamentação total dos mercados financeiros e bens e serviços.



    Fico por aqui. Comentarei depois as posições do outro lado,  em que se encontram organizações como a OCDE, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, a FEBRABAN, os intelectuais da Casa das Garças e outros sectários do fundamentalismo de mercado.  





    [1] vide UNITED NATIONS, The Global Economic Crisis: Sistemic Failures and Multilateral Remedies. United Nations Conference on Trade and Development. p. iii. New York and Geneve, 2009. 

    quarta-feira, 31 de agosto de 2011

    FINANCISTAS ESTUPEFATOS: SELIC CAIU MEIO PONTO !




    O Banco Central saiu do controle dos estupefatos financistas: o COPOM reduziu a SELIC, neste 31.08.2011, de 12,5% para 12% ao ano. Mas, se a inflação anualizada já está em queda e o nível de atividade econômica decresceu muito, porque a surpresa ? 


    A boa técnica de gestão da política monetária não recomenda nada diferente do que foi feito; talvez pudesse ser adotada essa mesma queda, mas adicionando-se um viés de baixa; isto é, com a possibilidade de a SELIC cair mais um pouco ainda no meio tempo até a próxima reunião do Copom, em outubro/2011.

    A queda foi  pequena, mas enfim é o início e vale  muito mais do que o 0,5%, pois é a busca  da retomada do controle das expectativas  da economia pelo Estado, em detrimento da hegemonia dos homens do mercado. Afinal o corte dos gastos do governo não poderia somente incidir sobre despesas sociais, mas também na "boquinha" dos rentistas que, guarnecidos pelos "homens do mercado" e pela  Febraban, usam e abusam do discurso do temor da inflação para manter seus ganhos astronômicos imorais.

    É de se perguntar: porque são consideradas pressões políticas sobre o COPOM apenas as manifestações dos economistas do Estado Brasileiro? E porque não o são as intensas inserções na mídia de financistas que defendem o interesse da banca?

    A grande imprensa, ao longo das duas últimas semanas, divulgou editoriais, matérias longas nos cadernos de opinião, elaboradas por consultores e lobistas de bancos,  a turma da Casa das Garças, além de economistas interessados em poupudos contratos com bancos privados, todos eles clamando em favor da permanência da Selic porque "ainda não é o momento, o quadro é indefinido, os efeitos da crise internacional ainda não se fizeram sentir intensamente sobre a economia brasileira, cautela com deliberações açodadas". Todos defendendo os bilhões carreados aos bancos a cada ponto percentual da Selic, com os quais eles todos se locupletam.

    E isso não é considerado pressão política por nossa mídia douta e isenta. Classificam como intrusão política a defesa da economia do País realizada pelos técnicos e administradores públicos que, além de estarem cumprindo sua missão, de resto têm muito mais informações precisas e indicadores a respeito de como anda a economia que qualquer financista  insípido, o mais das vezes garotos estreiando o terninho, embevecidos com a oportunidade do poder  que o sistema lhes outorga, inebriados com a notoriedade com que a mídia os chantageia. Prenhes da ortodoxia econômica mais abjeta e demodé, jamais ouviram falar de macroeconomia e muito menos de economia política.

    Se a gestão do Banco Central por Meirelles foi cautelosa e prudente em não alterar o modelo de distribuição da renda nacional em favor da banca e dos rentistas, sob alegação de temor da inflação e acusando opositores de intensionarem o calote da dívida, a gestão Tombini, por sua vez, abandona a ortodoxia fundamentalista de mercado e a prática da política "monetária pura", calcada exclusivamente na gestão de juros, em favor do retorno da aplicação dos demais instrumentos monetários, como os depósitos compulsórios dos bancos.

    A nova política do Banco Central é harmônica com os estudos econômicos mais recentes que, diante da falência das políticas neoliberais,  adota inusitado pragmatismo e  marca posição de independência da Autoridade Monetária em relação aos homens de preto do mercado financeiro. Parabéns.